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18 de janeiro de 2017

Abelhas removem larvas mortas para reduzir transmissão de doenças na colmeia




Elton Alisson | Agência FAPESP – Os insetos sociais, como formigas, cupins e abelhas, costumam apresentar um mecanismo de defesa em que removem crias mortas ou doentes a fim de reduzir a transmissão de doenças por parasitas e patógenos dentro da colônia.
Esse mecanismo, denominado “comportamento higiênico”, já tinha sido observado e estudado detalhadamente em abelhas com ferrão Apis mellifera, cujas operárias abrem com a mandíbula as células de cria onde estão uma larva ou pupa morta ou doente e as removem do ninho.
Agora, um grupo de pesquisadores da University of Sussex, da Inglaterra, em colaboração com colegas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), estudou por meio de um projeto apoiado pela FAPESP o comportamento higiênico em três espécies brasileiras de abelhas sem ferrão: a jataí (Tetragonisca angustula), a mandaguari (Scaptotrigona depilis) e a uruçu (Melipona scutellaris).
Os resultados do estudo foram descritos em um artigo publicado na revista Biology Open.
“Avaliamos o comportamento higiênico nessas três espécies porque são algumas das mais utilizadas no Brasil para produção de mel e polinização agrícola”, disse Denise de Araujo Alves, pós-doutoranda na Esalq-USP e uma das autoras do estudo, à Agência FAPESP.
Os pesquisadores coletaram favos de colônias dessas três espécies de abelhas e os congelaram durante dois dias, a fim de matar as pupas e larvas e simular o efeito causado por um agente patogênico.
Após contar a quantidade de células de cria com pupas e larvas mortas nos favos congelados, eles os reintroduziram em oito ninhos das três espécies de abelhas que foram monitorados a cada 24 horas, durante seis dias, para contabilizar os números de células abertas e de larvas e pupas removidas.
Os resultados do experimento indicaram que todas as três espécies de abelhas sem ferrão apresentaram níveis elevados de comportamento higiênico, removendo rapidamente as larvas e pupas mortas por congelamento.
As abelhas uruçu demonstraram melhor desempenho em executar essa tarefa. Em 48 horas após a introdução do favo congelado em suas colônias, as operárias dessa espécie de abelha removeram mais de 99% das pupas e larvas mortas.
Já as abelhas mandaguari removeram 80% da cria morta e as jataí eliminaram 62%.
“O comportamento higiênico dessas três espécies de abelhas sem ferrão é tão eficiente quanto o de abelhas com ferrão”, comparou Alves.
Curiosamente, os pesquisadores observaram que, em uma das colônias de mandaguari que apresentou desempenho mais lento na remoção de crias congeladas, 15% das abelhas adultas que emergiam de suas células tinham as asas deformadas – indicando a possibilidade da existência de doença ou desordem ainda não identificadas, mas com sintomas semelhantes aos causados pelo vírus da asa deformada em abelhas Apis mellifera.
Para avaliar a capacidade das abelhas mandaguari de identificar e remover as larvas e pupas contaminadas, os pesquisadores realizaram um segundo experimento: introduziram favos com crias vivas de colônia que apresentaram esse problema em outras colmeias saudáveis.
Os resultados desse experimento indicaram que as abelhas das colônias com níveis mais altos de comportamento higiênico no primeiro experimento também foram mais eficientes em detectar e remover a cria insalubre (com 12,5% de remoção) em comparação com as abelhas das colmeias menos saudáveis ou “higiênicas”, que removeram apenas 1% das pupas.
“Isso mostra que há uma variação dentro da espécie: quanto mais higiênica for a colônia, mais rápida será a detecção e remoção de larvas e pupas insalubres”, afirmou Alves.
“Como encontramos um número elevado de operárias com asas deformadas do lado de fora dos ninhos, acreditamos que essas abelhas acabam saindo ou sendo expulsas pelas outras operárias adultas e mais saudáveis”, afirmou Alves.
“Se a deformação das asas delas for causada por um agente patogênico, não é positivo que permaneçam na colônia”, avaliou.
Manejo de colônias
De acordo com estudos anteriores, o comportamento higiênico em abelhas não é aprendido: trata-se de um traço hereditário instintivo desses insetos sociais.
Em Apis mellifera esse mecanismo de defesa ajuda no controle de parasitas e patógenos que atacam esses insetos – como o ácaro da espécie varroa e o vírus da asa deformada. No caso desse grupo, os pesquisadores obtiveram colmeias totalmente higiênicas selecionando abelhas rainhas provenientes de colmeias altamente higiênicas.
Estudos realizados nos últimos 10 anos por pesquisadores do Laboratório de Apicultura e Insetos Sociais da University of Sussex indicaram que colônias de abelhas com ferrão com rainhas higiênicas obtidas por seleção apresentam níveis mais reduzidos de vírus de asa deformada e ácaro varroa e maiores taxas de sobrevivência.
Além disso, produzem tanto ou mais mel do que as abelhas de colônias não higiênicas, o que indica que as operárias das colônias higiênicas não removem a cria saudável por engano.
“Talvez esse mesmo procedimento também possa ser usado no futuro próximo com as abelhas sem ferrão para obter colônias mais saudáveis para serem usadas para polinização agrícola em larga escala”, afirmou Alves.
“Essa seleção poderá ocorrer durante a criação in vitro de rainha, produzindo colônias que apresentem altos níveis de comportamento higiênico para uso comercial”, indicou.
Estima-se que no Brasil existam cerca de 250 espécies nativas de abelhas sem ferrão, que têm sido cada vez mais usadas para a produção de mel e polinização e culturas agrícolas.
As doenças que acometem esse grande grupo de abelhas, encontradas em regiões tropicais em todo o mundo, contudo, são menos conhecidas em comparação com as abelhas com ferrão, apontam os pesquisadores.
“Como é um grupo de abelhas muito diverso e ainda não tão estudado como é a Apis mellifera, acreditamos que as abelhas sem ferrão apresentem doenças que ainda não foram identificadas. Contudo, talvez os baixos níveis de doença que observamos geralmente nessas abelhas se deva a mecanismos eficazes de controle dessas doenças”, avaliou Alves.
“Nesse sentido, o comportamento higiênico pode desempenhar um papel importante na saúde das abelhas sem ferrão”, apontou.
Segundo José Maurício Bento, professor da Esalq-USP e um dos coautores do trabalho, a comunicação química nos insetos sociais é fundamental para sua manutenção. Contudo ainda é pouco conhecida para as abelhas sem ferrão.
“Possivelmente, os sinais químicos produzidos pela cria indicam às operárias adultas o seu estado de saúde, facilitando a detecção e remoção das larvas e pupas doentes. Estamos agora interessados na composição química destes voláteis, o que abre novas e interessantes perspectivas de estudos”, afirmou Bento.
O artigo “Hygienic behaviour in Brazilian stingless bees” (doi: 10.1242/bio.018549), de Toufailia, Alves e outros, pode ser lido na revista Biology Open em bio.biologists.org/content/5/11/1712 .  

5 de janeiro de 2017

Milhões de abelhas morrem no interior de SP; agrotóxico pode ser causa

Que tristeza....

Pelo menos dez milhões de abelhas morreram nesta semana na região de Porto Ferreira (a 230 km de São Paulo). A estimativa de produtores de mel é que ao menos 200 colmeias de nove apiários tenham sido atingidas. A principal suspeita é de que agrotóxicos aplicados por uma usina em um canavial da região tenham causado as mortes.
O Ministério Público foi acionado e irá analisar se irá entrar com uma ação civil pública para apurar as responsabilidades.
As colmeias ficam na Fazenda Rio Corrente, que cede parte de sua área para a instalação das colmeias e também arrenda terras para a Usina Ferrari, responsável pela aplicação do agrotóxico. As colmeias ficam a algumas centenas de metros da plantação de cana e a suspeita é que a pulverização feita por avião tenha se expandido além da área pretendida pela usina.
"Perdi quase todas a minhas colmeias, e não vou conseguir voltar a produzir em menos de quatro anos. Vou retomar a produção, mas ela será bem menor até lá", conta o apicultor Wanderley Fardin, que estima um prejuízo de R$ 250 mil. 
Nem a Usina Ferrari nem representantes da fazenda informaram a marca do agrotóxico aplicado.
Segundo o biólogo Osmar Malaspina, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro, um estudo realizado no ano passado analisou uma série de caso de mortes de abelha em apiários no interior de São Paulo e concluiu que a principal causa da morte dos insetos é o uso incorreto de agrotóxicos.
"Pelo menos 70% dos casos têm como motivo o uso errado de agrotóxicos", disse. "Isso quer dizer uso acima da dosagem recomendada e aplicação em locais onde não o produto não deveria ser aplicado. Não podemos ser contra os inseticidas e agrotóxicos, mas eles devem ser usados dentro das determinações."
Wanderly conta que a mortandade de abelhas acontece todo ano, mas nunca nessas proporções. "Eu tenho perto de 200 colmeias. Todo ano perco entre 20 e 30 por conta dos agrotóxicos, mas acabamos dividindo as colmeias e repondo as perdas. Agora, não sobrou nada para repor", explicou.

Inseto é fundamental para polinização

O apicultor conta que as mortes começaram a ocorrer no início da semana, pouco depois de a Usina Ferrari realizou uma aplicação de agrotóxico em canaviais da região. "Acho que eles erraram a mão e acabaram com as abelhas. Até eu mesmo passei mal", disse Wanderley, que registrou boletim de ocorrência e afirmou que pretende cobrar os prejuízos na Justiça.
O biólogo da Unesp diz as abelhas são fundamentais para a polinização das plantas e que, por isso, a morte de uma grande quantidade delas pode ter impacto direto no meio ambiente. 
"A polinização por abelhas é de extrema importância tanto no aspecto ecológico, quanto econômico e social. Por isso, é essencial encontrarmos uma forma de as aplicações de agrotóxico não dizimarem colmeias inteiras."
Segundo Wanderley, a Usina Ferrari informou aos apicultores que enviou uma bióloga até o local da mortandade de abelhas e que irá apurar se o agrotóxico causou as mortes. 
Créditos: Eduardo Schiavoni
Do UOL, em Ribeirão Preto (SP)

12 de dezembro de 2013

Agrotóxico usado na cana mata dois milhões de abelhas, dizem apicultores



Produtores de mel culpam venenos por prejuízos em Gavião Peixoto,SP (Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)
Do G1 São Carlos e Araraquara
Os produtores de mel de Gavião Peixoto(SP) contabilizam os prejuízos depois que mais de dois milhões de abelhas morreram nas últimas semanas. Os apicultores acreditam que a mortandade tenha sido causada pela aplicação indiscriminada de agrotóxicos por parte dos produtores de cana-de-açúcar e de laranja. Segundo o Ibama, a pulverização aérea com algumas substâncias é proibida.
Mesmo assim, o problema não pôde ser evitado. Para o apicultor José Luiz Santos, o prejuízo estimado é de R$ 15 mil. “Eu tinha 30 colmeias. A expectativa era produzir mais uma tonelada de mel por ano, mas perdi tudo”, lamentou.
O caso foi denunciado para o Ministério da Agricultura e Meio Ambiente de Gavião Peixoto, que já coletou amostras para análise. Os apicultores suspeitam que as abelhas morreram por causa do uso de veneno na região. Principalmente quando é aplicado por aeronaves.
Todos os produtores rurais registraram boletim de ocorrência. “Estou aguardando o resultado da análise para ver se comprova se é o mesmo tipo de veneno. Tem que resolver, se não, não tem como trabalhar mais”, ressaltou o apicultor Valentim Donizete.
Recorrente
Além do prejuízo gerado este ano, os produtores também acumulam o prejuízo do ano passado, quando perderam dezenas de colmeias e mais de um milhão de abelhas morreram. Na época, um laudo constatou a presença de um inseticida usado para combater cupins em canaviais.
Toda a estrutura será jogada fora por causa de agrotóxico (Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)Toda a estrutura será jogada fora por causa de
agrotóxico (Foto: Reginaldo dos Santos/EPTV)
Este ano sobraram apenas algumas abelhas. Mas, toda a estrutura será jogada fora. “É preciso se desfazer, porque se colocar outro enxame no mesmo lugar, as abelhas vão morrer, pois o agrotóxico continua reagindo durante cinco anos”, justificou Donizete.
Sem controle
Segundo o pesquisador do instituto de biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro, Osmar Malaspina, o uso de agrotóxicos aplicados sem controle mata as colmeias. “Os agricultores têm aumentado as aplicações, como por exemplo, nos pomares de laranja, para controlar as pragas. No caso da cana-de-açúcar o aumento ocorre também porque as pragas não podem ser mais combatidas com a queima”, explicou.
A pulverização aérea também é um problema. “Conseguimos mostrar que a grande mortandade de abelhas estava relacionada à aplicação de agrotóxicos. Esse tipo de pulverização aérea foi suspensa por um tempo, mas este ano está sendo rediscutida se vai ser mantida ou se o Ibama vai liberar essa aplicação aérea”, disse Malaspina.
Fiscalização
O Ibama informou que proibiu a pulverização aérea com algumas substâncias. Já o escritório de Defesa Agropecuária afirmou que faz fiscalizações e que ainda não foi informado oficialmente sobre a mortandade das abelhas.
A federação que representa os agricultores não respondeu sobre o uso indevido de agrotóxicos. O laudo sobre a causa da morte deve sair na semana que vem.

Neonicotinoides: que são e como podem afetar você


Aprovados apressadamente, novos agrotóxicos são devastadores para abelhas — mas podem contaminar milhares de outras espécies e água que bebemos 
Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho
Só agora, quando os neonicotinoides já são os inseticidas mais usados no mundo, é que estamos começando a compreender a extensão dos impactos ambientais que causam. Assim como a fabricante do DDT, as corporações que produzem essas toxinas alegaram que eram inofensivas para outras espécies, além das pragas que eram seu alvo. Como no caso do DDT, ameaçaram pessoas que se mostraram preocupadas, publicaram argumentos enganosos e fizeram de tudo para ludibriar o público. E, como para garantir que a história segue o velho roteiro, governos colaboraram com esse esforço. Entre os mais (ir)responsáveis está o do Reino Unido.
Como mostra o professor Dave Goulson neste artigo sobre os impactos desses pesticidas, ainda não sabemos quase nada sobre como eles afetam a maioria das formas de vida. Mas, à medida em que as evidências se acumulam, os cientistas começaram a descobrir que eles provocam impactos numa enorme diversidade de vida selvagem.
Quem ler o artigo tomará contato com provas que apontam os neonicotinoides como uma das principais causas do declínio das populações de abelhas e outros polinizadores. Aplicados nas sementes de várias culturas, esses pesticidas permanecem nas plantas conforme elas crescem, e matam os insetos que as comem. A quantidades necessária para destruir os insetos é incrivelmente pequena: os neonicotinoides são 10 mil vezes mais potentes que o DDT. Basta que as abelhas sejam expostas a 5 nanogramas para que a metade delas venha a morrer. Assim como as abelhas, borboletas, mariposas, besouros e outros polinizadores que se alimentam das flores de espécies domesticadas pelo ser humano podem, ao que parece, absorver veneno em quantidade suficiente para comprometer sua sobrevivência.
Mas somente uma pequena parte do volume de neonicotinoides utilizados pelos agricultores é absorvida pelo pólen ou néctar da flor. Estudos realizados até agora sugerem que apenas de 1,6% a 20% do pesticida usado nas sementes de fibras têxteis são de fato absorvidos pelas plantas — muito menos do que quando as toxinas são pulverizadas sobre as folhas. Parte dos resíduos é levada pelo vento e provavelmente causará estragos nas populações de muitas espécies de insetos, nas sebes e habitats das proximidades. Mas a grande maioria, diz Goulson – “normalmente, mais de 90%” – do veneno aplicado às sementes penetra no solo. Em outras palavras, a realidade é bem diferente da visão criada pelos fabricantes, que continuam descrevendo a cobertura de sementes com pesticidas como ”intencional” e “precisa”.

Os neonicotinoides são químicos altamente persistentes, que se mantêm (segundo os poucos estudos publicados até aqui) no solo por mais de 19 anos. Como são persistentes, tendem a se acumular: a cada ano de aplicação o solo se torna mais tóxico.
Ninguém sabe o que esses pesticidas provocam no solo, já que ainda não foram feitas pesquisas suficientes. Mas – mortais para todos os insetos e possivelmente para outras espécies em concentrações mínimas – é provável que acabem com grande parte da fauna do solo. Isso inclui as minhocas? Os pássaros e mamíferos que comem minhocas? Aves e mamíferos que se alimentam de insetos e sementes pulverizadas? Ainda não sabemos dizer.
Isso é o que você continuará ouvindo sobre esses pesticidas: passamos a utilizá-los cegamente. Nossos governos aprovaram seu uso sem a mais pálida ideia das prováveis consequências.
Você pode ter tido a impressão de que os neonicotinoides foram banidos da União Europeia. Mas não foram. O uso de alguns poucos desses pesticidas foi suspenso por dois anos, mas apenas para determinados propósitos. Ao ouvir os legisladores, seria talvez levado a acreditar que abelhas melíferas são os únicos seres que eventualmente são afetados, e que somente flores de plantas cujas sementes foram pulverizadas podem matá-los.
Mas os neonicotinoides são também borrifados sobre folhas de ampla variedade de culturas. Estão ainda espalhados em pastagens e parques, em pequenos grãos, para matar insetos que vivem no solo e comem raízes da grama. Essas aplicações, e muitas outras, permanecem legalizadas na União Europeia – embora não saibamos a gravidade e extensão de seus impactos. Sabemos o suficiente, contudo, para concluir que são provavelmente nefastos.
Claro, nem todos os neonicotinoides que penetram no solo alojam-se ali indefinidamente. Você ficará aliviado ao saber que alguns deles são lavados, quando, então… ah sim, acabam em águas subterrâneas ou rios. O que acontece ali? Alguém sabe? Os neonicotinoides não são sequer mencionados entre as substâncias monitoradas pelos órgãos que cuidam da água, de modo que não temos ideia sobre quais concentrações se encontram nos líquidos que nós e muitas outras espécies usamos.
Mas estudo realizado na Holanda revela que a água de algumas áreas de horticultura é tão fortemente contaminada por esses pesticidas que poderia ser usada para tratar piolhos. O mesmo estudo mostra que, mesmo em concentrações muito baixas – não superiores aos limites definidos pela União Europeia – os neonicotinoides que penetram nos sistemas fluviais acabam com metade das espécies de invertebrados que esperaríamos encontrar nos rios. Essa é outra maneira de dizer que destroem grande parte da cadeia alimentar.
Fui motivado a escrever este artigo por uma horrível notícia sobre o Rio Kennet, no sul da Inglaterra: um ecossistema altamente protegido. No mês passado, alguém – um fazendeiro, dono de casa, ainda não se sabe – jogou outro tipo de pesticida, o clorpirifós, na pia. A quantidade era equivalente – em substância pura – a duas colheres de chá. O veneno passou pelas obras de esgoto da região de Marlborough e exterminou a maior parte dos invertebrados existentes numa extensão de 24 quilômetros do rio.
A notícia me atingiu em cheio. O melhor trabalho que já tive foi, durante as férias de verão da universidade, como zelador da água no trecho do rio Kennet pertencente ao espólio Sutton (Sutton estate). Foi um trabalho difícil e, na maioria das vezes, só fiz bobagem. Mas vim a conhecer e amar esse trecho do rio, e me maravilhei com a profusão impressionante de vida contida naquelas águas claras. Mergulhado nela até a altura do peito durante a maior parte do dia, fiquei imerso na ecologia, e passei muito mais tempo do que devia observando pequenos castores e maçaricos; cabozes gigantes abanando as suas barbatanas à sombra das árvores; grandes trutas tão leais a seus postos que branqueavam o cascalho do leito do rio sob suas caudas; lagostins nativos; libélulas; larvas de moscas d’água; camarões de água doce e muitas outras espécies.
À noite, em busca de companhia e igualmente fascinado pelos protestos e pelas pessoas notáveis ​​que ele atraiu, eu acabava no campo de paz, na frente dos portões da base nuclear de Greenham Common. Contei sobre a estranha história que rolou nessas minhas visitas em outro post.
Ativistas que procuram proteger o rio já descreveram como, após a contaminação, ele cheirava mal por causa dos cadáveres de insetos e camarões em decomposição. Sem insetos e camarões para se alimentar, os peixes, aves e anfíbios que utilizam o rio tendem a desaparecer e morrer.
Depois de digerir esta notícia, lembrei-me do estudo holandês, e me pareceu que os pesticidas neonicotinoides provavelmente estão, em muitos lugares, minando a vida dos rios onde entram de forma semelhante: não uma vez, mas durante todo o tempo em que estão entranhados no terreno à sua volta.
Richard Benyon, ministro do Meio Ambiente do Reino Unido, supostamente encarregado de proteger a vida selvagem e a biodiversidade – e que coincidentemente possui direito de pesca em parte do Rio Kennet e representa o eleitorado da região por onde ele passa –,expressou sua “raiva” pelo envenenamento por clorpirifós. Não deveria ele também se indignar contra o envenenamento rotineiro dos rios por neonicotinoides?
Se fizesse isso, ficaria em maus lençois com seu chefe. Assim como envenenam sistematicamente nossos ecossistemas, os neonicotinoides também envenenaram as políticas (já reconhecidamente bem tóxicas) do departamento que deveria regulá-los. Em abril, Damian Carrington expôs, escrevendo no Observer, a carta enviada pelo ministro encarregado do Departamento de Meio Ambiente, Alimento e Negócios Rurais, Owen Paterson, à Syngenta, fabricante desses pesticidas. Paterson prometia à multinacional que seus esforços para evitar a proibição de seus produtos “continuarão e se intensificarão nos próximos dias”.
E de fato, o Reino Unido recusou-se a apoiar as proibições temporárias propostas pela Comissão Europeia tanto em abril como em julho, a despeito do número enorme de petições e dos 80 mil emêios sobre o assunto que Paterson recebeu. Quando ele e o departamento que dirige viram-se frente à escolha entre a sobrevivência da natureza e os lucros das multinacionais dos pesticidas, não houve muita dúvida sobre onde pular. Felizmente, eles fracassaram. (…)
No início de agosto, como para nos recordar do quanto este governo está capturado pelas corporações que deveria regular, o cientista que liderou as inúteis experiências que Walport e Paterson citaram como desculpa, deixou o governo para assumir um novo posto na… Syngenta. Parece que ela já estava trabalhando para eles, na verdade.

Portanto, temos aqui um departamento que cambaleia como um bêbado portando uma metralhadora carregada, assegurando-nos de que é perfeitamente seguro. As pessoas que deveriam estar defendendo a natureza têm conspirado com os fabricantes de biocidas de largo espectro para permitir níveis de destruição que só podemos imaginar. Ao fazê-lo, eles parecem estar arquitetando uma outra primavera silenciosa.